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"Pais começarão a assistir à morte de filhos por doenças que se previnem"

Estar no topo das listas mundiais nem sempre é motivo de orgulho e foi isso mesmo o que aconteceu quando a Organização Mundial da Saúde colocou Portugal entre os cinco países com mais adolescentes obesos. Mas que consequências traz este excesso de peso que afeta também adultos? Um sem número de doenças e a morte precoce dos filhos, alertou em entrevista Francisco Varatojo, presidente do Instituto Macrobiótico de Portugal.

A obesidade é, actualmente, um dos problemas de saúde pública mais alarmantes em todo o mundo e, claro, Portugal não é excepção. Pelo contrário.

 

Esta semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou o nosso país entre as cinco nações europeias com maior taxa de obesidade na adolescência. Depois de terem sido analisados 27 países no total, Portugal surge lado a lado com a Grécia, Macedónia, Eslovénia e Croácia, países que registam níveis de obesidade superiores a 10%.

A propósito do Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade, que se celebra hoje, o Notícias ao Minuto esteve à conversa com Francisco Varatojo, presidente do Instituto Macrobiótico de Portugal, que não hesitou em classificar a obesidade não só como uma questão de saúde, mas também como uma questão social e política.


É mais caro, neste momento, comer bem do que comer mal

Para Francisco Varatojo, “é completamente indiscutível – e quem não disser isto não sabe mesmo do que está a falar – que há uma relação directa entre aquilo que nós comemos e os problemas de saúde modernos”. E são esses mesmos problemas de saúde modernos que estão na origem de uma geração que vai “começar a assistir à morte dos filhos por doenças previsíveis”.

Somos mesmo aquilo que comemos?

Sim, somos literalmente o que comemos, porque se não comermos a vida não é possível, porque é a partir daquilo que nós comemos que acabamos por criar sangue e é esse sangue que nutre as nossas células e, consequentemente, nutre os nossos órgãos e é esse sangue que também nutre o nosso cérebro, o nosso sistema nervoso. Grande parte daquilo que nós somos na vida depende realmente daquilo que comemos. Há evidentemente factores sociais, ambientais e educacionais, há toda uma série de factores que influenciam e criam o ser humano, mas, de um ponto de vista biológico, o aspecto alimentar é um aspecto absolutamente essencial.

Além disso, a maioria dos estudos aponta mesmo para uma relação directa entre aquilo que nós comemos e a saúde que se tem, há uma relação evidentemente directa entre aquilo que nós comemos e a saúde do sistema digestivo, há uma relação directa entre aquilo que nós comemos e a saúde cardiovascular, há uma relação directa entre aquilo que nós comemos e a diabetes, há uma relação directa entre aquilo que nós comemos e a hipertensão, há uma relação directa com um número enorme de cancros.

É indiscutível, é completamente indiscutível – e quem não disser isto não sabe mesmo do que está a falar – que há uma relação directa entre aquilo que nós comemos e os problemas de saúde modernos. Todos os estudos dizem isso. Na realidade, se as pessoas fizessem alterações nem muito grandes na alimentação, a maior parte dos problemas de saúde desaparecia e pouparíamos milhões e milhões de euros aos Estados, o que seria simpático numa altura de crise económica. Mas, mais importante, as pessoas estariam mais saudáveis. Somos indiscutivelmente aquilo que comemos e aquilo que comemos é o aspecto primordial para a prevenção dos problemas de saúde modernos, não há nada tão importante como isso, nada. A alimentação e a actividade física são aspectos que podemos mesmo controlar.

As pessoas têm essa consciência do impacto que a alimentação tem na saúde física e mental?

A maior parte das pessoas que tenha minimamente alguma cultura terá alguma consciência, mas se faz alguma coisa com a consciência isso já é outra história. A maioria das pessoas tem ideia de que fumar faz mal e continua a fumar, acho que a maioria das pessoas tem ideia de que comer grandes quantidades de açúcar faz mal, mas continua a comer grandes quantidades de açúcar. Há alguma consciência, sim, mas há um fenómeno engraçado: quando nós perguntamos às pessoas se elas comem bem, toda a gente acha que come bem mesmo quando a dieta é atroz. É um fenómeno difícil de perceber porque toda a gente acha que come bem e tem uma alimentação muito boa, mas isso na maior parte das vezes não é verdade.

A Organização Mundial da Saúde coloca Portugal entre os cinco países com mais adolescentes obesos. É possível encontrar um culpado para este cenário?

Não há bem um culpado para esse cenário, são as escolhas que as pessoas fazem. Mas, se quer que lhe diga, os pais podem ser culpados porque permitem que os filhos comam tudo e mais alguma coisa e não têm o mínimo controlo sobre aquilo que comem. Não quero culpabilizar os pais com isso, mas claramente que a obesidade depende das escolhas que fazem as famílias e há famílias que alimentam os filhos com todo o lixo desde manhã até à noite e, pessoalmente, acho isso bastante irresponsável.

Os adolescentes também têm a possibilidade de fazer escolhas e apesar do enorme marketing da indústria alimentar, que põe as pessoas a comerem muito mal, ainda assim, nos tempos actuais e em países como Portugal, há também bastante informação boa e adequada que pode permitir às pessoas fazerem escolhas alimentares melhores.

A questão da obesidade juvenil não é apenas uma questão portuguesa, é mesmo um problema do mundo inteiro e é bastante perigoso, porque o que está a acontecer agora é que temos miúdos jovens a terem problemas que só surgiam muito mais tarde na vida. Estamos a ter miúdos com problemas cardiovasculares e até a diabetes está a crescer brutalmente em crianças e adolescentes e isso é muito perigoso.

Estamos numa geração em que os pais vão começar a assistir à morte dos filhos por doenças previsíveis e isso é muito mau e assustador. E ninguém liga muito a isto, para ser franco.


Há famílias que alimentam os filhos com todo o lixo desde a manhã até à noite e, pessoalmente, acho isso bastante irresponsável

Mas se os pais já vão tendo alguma consciência e os adolescentes têm a capacidade de fazer as próprias escolhas, o que está a falhar na passagem da mensagem?

Do ponto de vista da educação temos o exemplos dos pais, que até podem estar conscientes mas não fazem nada no dia a dia. Eu sou pai de quatro filhos e em nossa casa comemos de uma forma adequada, não comemos carne, não comemos açúcar. Os meus filhos foram educados assim, cresceram assim e continuam a fazer a mesma coisa. Isto não quer dizer que seja uma educação perfeita ou que não haja filhos que cresçam nesse tipo de meio e que acabem por não seguir depois o exemplo, mas, de uma forma geral, funciona, se dermos o exemplo acaba por funcionar.

Acho que há uma grande falta de educação alimentar nas escolas, nas universidades, nos hospitais. Basta olhar para a comida que existe nessas cantinas e, muitas vezes, é indiscutivelmente mau.

É um problema comum, não é apenas uma questão dos pais, é uma questão social.

E por falar em cantinas, Portugal passou a ter a inclusão de refeições vegetarianas em cantinas públicas. Veio tarde essa medida?

Não. É uma medida inovadora, somos o único país no mundo que tem uma lei que diz que em todos os serviços públicos tem de haver refeições vegana. Acho que vem numa altura boa e que é muito meritório para Portugal.

Não sei como está a ser feita a implementação dessa medida nem sei como é a qualidade da comida, para ser honesto, mas acho que é uma excelente medida. Estamos de parabéns por isso.

A partir do momento em que a obesidade depende, em parte, do sedentarismo e das más escolhas alimentares, como é que a macrobiótica pode ajudar a lutar contra esta tendência que afecta miúdos e graúdos?

É super fácil. A maior parte dos macrobióticos é bastante magrinho, o não comer no dia a dia produtos animais, ou comer poucos produtos animais, ou não comer açúcar, não comer produtos refinados, automaticamente faz com que seja praticamente impossível engordar. É muito difícil engordar a comer assim, por isso, a adopção de um regime macrobiótico vai contribuir, claramente, para que haja uma redução enorme das pessoas obesas e isso seria mais ou menos garantido. E não é nada difícil, mesmo.


A ração industrial/fast food/comida plástico é mais barata porque, muitas vezes, o dinheiro dos nossos impostos vai ajudar a tornar esses alimentos mais baratos, isso é obsceno.
A ideia que muitas pessoas têm de que comer bem é sinónimo de gastar dinheiro contribui para esta tendência de comer alimentos menos saudáveis que são mais baratos?

É obsceno uma refeição do McDonald's custar cinco euros. A comida plástico/ração industrial é mais barata do que comer como deve ser e a comida-pástico é mais barato porque, muitas vezes, o dinheiro dos nossos impostos vai essencialmente para ajudar a tornar esses alimentos mais baratos, isso é que é obsceno.

O dinheiro dos nossos impostos ajuda a que multinacionais paguem menos impostos e que a indústria pecuária seja valorizada em termos sociais, porque, de um ponto de vista real, fica muito mais barato produzir alimentos de origem vegetal do que fica produzir alimentos de origem animal. Essa é a realidade.

É mais caro, neste momento, comer bem do que comer mal e isso é muito mau, porque as classes mais pobres, classes menos educadas, são as classes que vão ficar mais doentes por não terem dinheiro para comer e isso é um problema social, é um problema que tem de ser resolvido a nível político. Falta é políticos que tenham coragem para isso.

Além de colocar Portugal no top 5 de países com mais adolescentes obesos, a Organização Mundial da Saúde diz que os jovens portugueses comem poucas frutas e vegetais. O que é que deve ser feito para tentar travar esta tendência?

Passa, novamente, pela educação. Não vejo outra solução, passa mesmo por educação em casa, educação na escola, por educação pelos media, passa por taxar mais os alimentos que são prejudiciais à saúde. Passa mesmo por haver uma maior educação alimentar e devia ser desde pequeninos, nas escolas, e isso não há. Essa educação é praticamente nula.

Uma disciplina de educação alimentar poderia fazer falta num plano curricular?

Sim, faria. Ou até poderia ser incluído em aulas de saúde, como a Biologia. Seria essencial e cantinas como deve ser nas escolas era também importante.


A indústria pecuária contribui mais para a produção de gás antropogénico do que todos os meios de transporte juntos e ninguém quer falar nisto
Devíamos voltar às origens e comer aquilo que a natureza nos dá ou tentar imitar a alimentação dos nossos avós, por exemplo?

Imitar a alimentação dos nossos avós agora seria diferente, porque há mais variedade agora do que na altura e isso é bom. O que devemos, essencialmente, é mesmo evitar – quer do ponto de vista de saúde, quer do ponto de vista ambiental – alimentos muito processados, devemos reduzir seriamente os produtos de origem animal, incluindo lacticínios, devemos reduzir seriamente o consumo de açúcar. Se as pessoas reduzirem o consumo de alimentos processados, açúcar e produtos animais isso daria uma diferença brutal em termos de saúde.

Deve comer-se mais cereais, mais vegetais, mais leguminosas, mais fruta, mais sementes. O caminho passa por aí e isto é importante não só do ponto de vista de saúde, mas também do ponto de vista ambiental, porque a causa principal dos problemas ambientais modernos é essencialmente a industria pecuária, mais do que os automóveis, mais do que as motos.

Segundo a FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura], a indústria pecuária contribui mais para a produção de gás antropogénico do que todos os meios de transporte juntos e nunca ninguém quer falar nisto, porque é estar a tocar em assuntos que são mais ou menos intocáveis porque mexem com os interesses das indústrias alimentares. Essa é uma questão fulcral.

Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os estudos acerca da alimentação e do que faz bem ou mal à saúde e as pessoas sentem-se confusas. Como é que as pessoas podem filtrar toda a informação que lêem?

É mesmo uma confusão. Confesso que é incrivelmente confuso porque há todo o tipo de teorias, todas as teorias são científicas entre aspas. Como é que se pode filtrar é uma boa pergunta e eu acho que uma questão fundamental é observar, de alguma forma, o que é que funcionou em termos históricos e que nós podemos manter ao longo dos séculos. Devemos também considerar qual é o impacto ecológico daquilo que comemos, eu sou da opinião de que se um alimento é bom para a saúde deve ser bom para o ambiente e vice-versa.

Devemos tentar perceber que estudos são mais neutros e considero importante, do ponto de vista de consideração sobre o que é que é o efeito da alimentação na saúde, não o estudo nutricional, mas sim o estudo de segmentos muitos grandes da população, aquilo a que se chama de estudo epidemiológico, que é muito mais fiável no que toca a perceber o que é que a alimentação faz realmente à saúde, é um estudo que analisa milhares de pessoas durante muitos anos. Se não é uma confusão muito, muito grande. Come-se carne, não se come carne, bebe-se leite, não se bebe leite, come-se comida crua, não se come comida crua. É uma confusão completa.

Depois há a ciberrede/internet que tem imensa informação que, de todo, não é fidedigna nem filtrada. As pessoas estão expostas às redes sociais e a toda esta velocidade brutal de informação dos tempos modernos e ficam confusas.


Não acho que as pessoas fiquem menos confusas por falarem com um nutricionista, acho que até estão a ficar mais confusas
As pessoas deviam procurar mais especialistas e um aconselhamento especializado junto de nutricionistas?

Para ser franco consigo, de um ponto de vista de recomendações nutricionais, a confusão é ainda maior. Eu não acho que as pessoas fiquem menos confusas por falarem com um nutricionista, acho que até estão a ficar mais confusas, porque, de um ponto de vista da Nutrição, as opiniões são completamente díspares. A nutrição, de ano a ano, tem teorias diferentes: come-se sardinhas, não se come sardinhas, come-se ovos, não se come ovos.

Não me parece haver uma enorme credibilidade a esse nível, porque a nutrição acaba por ser muito pressionada entre aspas pela indústria alimentar, aliás, a indústria alimentar patrocina os congressos de nutrição e isso não faz nenhum sentido, acho que as coisas não podem funcionar assim.

Para terminar, o que é uma alimentação saudável?

Na minha interpretação e tendo em conta um clima temperado como o nosso, uma alimentação saudável é uma alimentação que deve ser predominantemente de origem vegetal, não tem de ser exclusivamente, mas sim predominantemente.

Os cereais integrais, os vegetais, as leguminosas, as sementes, os frutos devem ser o centro, o núcleo dessa alimentação. Deve evitar-se açúcar, alimentos muito processados, deve evitar-se alimentos quimicalizados e, como disse há pouco, deve também evitar-se o consumo de alimentos animais como a carne e lacticínios.

 

As pessoas devem saber cozinhar para assegurar qualidade alimentar, é importante mastigar a comida como deve ser, é muito importante ter actividade física e é também muito importante dormir. É basicamente isto, assim de uma forma simples.

 

Obs.:

De acordo com os dados do Inquérito Alimentar Nacional, publicado em Março deste ano, mais de metade da população portuguesa tem excesso de peso (57%), e não segue as recomendações da dieta mediterrânica. De um modo geral a população em Portugal come cada vez pior e com menos qualidade.
O que é que a OM, a DGS e outras instituições ditas de "saúde" têm feito em prol de um peso saudável?

Hipócrates há quase 2500 anos: "Que o teu alimento seja o teu medicamento."

Seneca: "O Homem não morre, mata-se."

 

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Fonte:

noticiasaominuto

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